
Ísis, uma das deusas mais importantes do panteão egípcio e uma grande feiticeira, tem estreita relação com as serpentes. Em um dos mitos, ela cria a primeira serpente do mundo e a deixa no caminho de Rá. Este, picado e condenado a morrer, se vê obrigado a compartilhar seu verdadeiro nome para ser salvo. Por isso, quando alguém era picado por cobras, pedia à Isis que a livrasse do veneno.
Disse Rá: Uma criatura mortal me feriu. Meu coração o pressentiu, mas não sei do que se trata, porque meus olhos não puderam vê-la, nem minhas mãos puderam tocá-la. É desconhecida entre tudo que eu criei. Nunca senti tal dor, não conheço nada tão mortal.
Essas referências não eram conhecidas quando batizei minha querida fila de Poderosa Isis, nome de um seriado dos anos 70 que eu gostava bastante quando criança e que brotou na minha mente nos primeiros segundos de contato com aquele bebê canino enorme e afetivo, pelo dourado e íris cor de mel, que cresceu e se tornou uma jovem forte, minha guia e guardiã, circundando minhas pernas como uma felina, impedindo ou estimulando meu caminhar.
Não presenciei seu encontro com esta singular serpente que colocou um fim à sua vida. Mas a imagino assim, encolhida nos encontros das pedras do córrego que circunda nossa aldeia, pronta para lançar o veneno mortal, ameaçada pela sua presença. E em poucos segundos, a sentença já estabelecida, a vejo rastejando de volta à escuridão.
Não roguei à Isis sua salvação, pois nada sabia sobre esse poder. Imagino, no entanto, que tenha sido ela que te quis de volta, talvez sua missão comigo tenha chegado ao fim.
Sua partida foi tão inesperada quanto sua chegada e arrancou do meu mundo toda a cor, toda a certeza, toda a fé em sentidos e propósitos. Maldisse a vida e a morte. Fechei os ouvidos a tudo que pudesse vir desse mundo de mistério para tentar me consolar. Me ative à revolta como um bálsamo.
Não mais te seguirei nos caminhos, não mais me receberá na porteira da nossa terra, aflita, queixosa. Não mais deitará no meu colo nas manhãs de sábado, longamente. Não mais.
Que destino é esse, o do humano, consciente das chegadas e partidas, dos esforços repetidos, das ambições inúteis, de todas as vidas caminhando em uma corrente que nunca para, cujo fim é o nada? E ainda assim, obrigado pelos instintos, imagina ficções e necessidades para levantar da cama e cumprir mais um dia de propósitos vazios, mesmo quando a dor é tão grande, que o melhor seria desistir de todo o movimento.
Mas assim é: temos sede, temos fome, temos outras conexões que exigem vida em nós, que exigem o heroísmo de viver uma vida absurda – amando, desesperadamente, sempre amando.